terça-feira, 11 de março de 2008

Vento, ventania

“O vento, num dia radioso, certa vez chamou.”
Antonio Machado




Segunda-feira. No princípio, eram o vento e as janelas. O vento que teimava em manter todas as janelas abertas e, vez ou outra, as sacudia com vontade. As janelas que iluminavam o apartamento e o coração e permitiam o entra-e-sai de sonhos e esperanças, de desejos e vontades, de planos e de medos, de intenções não-ditas. Depois, vieram o branco e o azul. Nas casinhas de La Goulette e em outras tantas da serena, franco-árabe e demodée Túnis, mas também naqueles olhos que me olhavam com suavidade e me reconheciam ternamente como outra pessoa, numa espécie de concretização das pequenas epifanias de Caio Fernando Abreu. Em seguida, chegaram a despedida, o aeroporto e o céu, cuja perspectiva transformou a simpática capital da Tunísia num mosaico à altura daqueles que o magnífico Museu do Bardo, com sua coleção da época bizantina, abriga. Seria pedir demais conter o choro. As lágrimas foram azuis, pois os olhos castanhos não conseguem mais apagar da retina os olhos azuis, as casinhas de telhado azul, o azul dos azulejos, o azulado da Medina, o azul do mar abaixo, a brancura de todo aquele azul.


Na quarta passagem pelo Charles de Gaulle, o moço da alfândega pergunta a origem da cicatriz no pescoço da moça, antes mesmo de pedir o passaporte. Em poucos minutos, todo o pessoal da segurança está conversando com a jeune fille brésilienne: Lula, Chirac, ônibus incendiado em Marseille, analfabetismo, esperança, futebol, Zidane, brasilidades, francesismos. O chefe da turma pede o email da cidadã. Quer seguir trocando idéias com ela – não é todo dia que aparece gente tão falante e sorridente por aqui. Logo, outra brasileira passa por lá: é Jussara, vinda de um vôo de Lisboa onde esteve com parentes que vivem em terras portuguesas. Antes, havia vivido dois meses na Alemanha fazendo um estágio em engenharia metalúrgica. Teve lá sua história de amor com o Björn, 29 anos, pouco mais velho que ela, também com seus olhos azuis do hemisfério norte. Jussara conta que, antes de partir, imprimiu várias fotos deles dois e as espalhou pela casa do rapaz. Björn ainda não encontrou todas; mas escreveu dizendo que cada uma delas lhe traz de volta um pedacinho de Jussara. Promessas, quereres. Ele disse que vai visitá-la no Brasil, mais especificamente em Ouro Preto onde a moça estuda. Ela não acredita (ou diz a si mesma que não acredita, já que suspira). Ei, Björn, apareça, por favor!!!


Terça-feira. O vento de ontem reaparece, desta vez no apartamento em São Paulo, que fica no quinto andar, e insiste em brincar com as cortinas. Ar, ar, ar. Deixe a luz entrar, menina! Se puder, abra também as portas, construa pontes, deixe crescer asas, plante bananeira e afofe a terra. Solte os cabelos, vista a saia de joaninhas. Viveu muita coisa para deixar criar mofo. As férias chegaram ao fim, mas o caminho não. Então... O vento que sopra aqui é exatamente o mesmo que soprava ontem em Túnis? Também é aquele mesmo que impeliu a viajante para o horizonte? Que emoldurou o pôr-do-sol no Castelo de San Ângelo naquela Roma rosada, que soprou a peregrina para as cintilantes ilhas croatas, que espalhou o canto da Mesquita de Selimiye para toda a Turquia numa noite de sábado estrelado, que empurrou o barquinho pelas águas do Sena no dia de “Antes do Pôr-do-Sol”?

“é chegar onde começamos
e conhecer o lugar pela primeira vez.” T.S.Eliot

Bem-vindos a mim, portanto – a mesma em essência, mas um tanto diferente depois da passagem do vento, que não pára de tirar do lugar meus papéis e meus sentimentos e embaraçar os meus cabelos.

“Agarrando-nos ao vento com as unhas”, disse Juan Rulfo, citado por Eduardo Galeano em seu Século do Vento. Já me agarrei.

31/10/2006

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